A divulgação de um estudo internacional sobre uma nova estratégia para o tratamento da hipotonia ocular crônica gerou ampla repercussão na imprensa, muitas vezes com a apresentação dos resultados como uma solução inovadora ou definitiva para a condição. Diante desse cenário, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) destaca a importância de uma leitura criteriosa do trabalho e do correto entendimento de seu alcance científico.
Publicado no British Journal of Ophthalmology, o estudo descreve uma série piloto prospectiva conduzida por pesquisadores de centros de referência do Reino Unido, incluindo o Moorfields Eye Hospital. A pesquisa acompanhou, por 12 meses, sete pacientes (oito olhos) com hipotonia ocular estrutural crônica, condição caracterizada por pressão intraocular persistentemente baixa, capaz de provocar deformação do globo ocular e perda progressiva da visão.
A estratégia avaliada consistiu na aplicação de injeções intravítreas de hidroxipropilmetilcelulose (HPMC), uma substância viscoelástica que já é amplamente utilizada em cirurgias de catarata e considerada segura e biocompatível. No estudo, a substância utilizada ajudou a preencher o interior do olho, oferecendo suporte temporário para que ele recuperasse parte de seu formato original, o que contribuiu para a melhora da pressão ocular e, em alguns casos, da visão.
Todos os pacientes incluídos no estudo ainda tinham possibilidade de recuperar parte da visão e, antes de receber a nova terapia, passaram por avaliação e tratamento das causas que poderiam ser revertidas. A nova estratégia só foi utilizada quando a pressão do olho continuou baixa mesmo após essas tentativas, funcionando como um complemento ao tratamento principal, e não como sua substituição.
Resultados - De acordo com os autores, após um ano de acompanhamento, 87,5% dos olhos tratados apresentaram melhora da acuidade visual, além de aumento da pressão intraocular, recuperação do comprimento axial do olho e melhora de alterações maculares na maioria dos casos.
Para Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), entidade afiliada ao CBO, os resultados representam um avanço do ponto de vista científico, mas ainda em fase inicial. “O protocolo feito de forma organizada nesse estudo é inédito, mostrando ser promissor em olhos com essa condição, utilizando uma substância segura e compatível com o corpo humano”, afirma.
No entanto, ele ressalta que o estudo apresenta limitações importantes. “O número de pacientes é pequeno e não houve grupo de comparação, o que impede que os resultados sejam automaticamente aplicados a todas as pessoas com a doença. Além disso, parte dos pacientes apresentou efeitos colaterais e, em muitos casos, foi necessário um número elevado de injeções ao longo do tratamento”, explica.
Segundo o especialista, estudos como esse reforçam a importância do investimento contínuo em pesquisa na oftalmologia. “A ciência avança de forma gradual. Toda nova terapia precisa passar por etapas rigorosas de validação clínica e por processos regulatórios conduzidos por órgãos como a Anvisa e a Conitec, ambos ligados ao Ministério da Saúde”, pontua.
A presidente do CBO, Maria Auxiliadora Frazão, destaca ainda que a aplicação de novas terapias, após aprovação pelos órgãos reguladores, deve ocorrer exclusivamente por médicos com especialização em oftalmologia, em serviços habilitados e com estrutura adequada. “Os centros de referência do SUS na área de oftalmologia têm papel fundamental para garantir acesso ao tratamento correto e seguro à população”, diz.
Ela reforça o compromisso da entidade com a divulgação responsável de informações em saúde. “O CBO tem papel fundamental no esclarecimento das novas notícias que surgem sobre terapias em investigação, sempre por meio da análise cuidadosa dessas informações por membros que compõem essa entidade”, conclui.
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